Liberdade · Igualdade · Fraternidade
Soberano Capítulo
Renascença
nº 01
Membro do Grande Capítulo Geral do Brasil
Ordens de Sabedoria do Rito Francês
Liberdade Absoluta de Consciência
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Liberdade Absoluta de Consciência
Fraternidade nos Debates
Por Ir:. Francisco Pinheiro *
O título do presente artigo reúne duas coisas cada vez mais esquecidas. Primeiro: hoje em dia não há mais espaço, tampouco respeito para debates. Segundo: o conceito de fraternidade (aquele que bradamos minguado ao fim da nossa divisa "Liberdade, Igualdade, Fraternidade").

Mas afinal, o que é debater? Cremos piamente que todo Maçom deveria ser não alguém que torne tudo um debate, mas alguém com quem se possa debater sem medos nem amarras. Tem-se mundo a fora o costume de dizer que a internet tornou as pessoas ignorantes e desrespeitosas com os argumentos dos outros. Talvez isso seja meia verdade. Concordamos que tornar um debate feito por computador acalorado é uma tarefa bem simples em qualquer ferramenta de comunicação que dispomos, em contra partida, tudo que a internet tenha feito, talvez, tenha sido tornar a ignorância universalizada.

Lembro-me de ter feito um juramento que a ignorância era uma das coisas que devia combater. Se em algum momento eu me questionei como deveria dar caras a esse combate, hoje respondo: com o debate.

É impossível falar em argumentação, em debate, em discordâncias acoloradas(natural em debates, pois senão), e não nos lembrarmos de uma popular máxima de Voltaire: "Discordo plenamente daquilo que dizes, mas defenderei até a morte o direito que tens de dizê-lo."

Quando nos apregoamos homens livres devemos trazer com a nossa liberdade a consciência de que cruzaremos o caminho de outros, alguns tão ou mais livres que nós mesmos e outros menos ou muito menos livres. Devemos estar prontos para a adversidade em todos os casos, sem exceção. Não basta, como talvez tenha eu feito parecer, que lembremos do dito de Voltaire. Se nós lutarmos pelo direito, ou não, de que alguém se expressar é ato deliberado de nossa parte, mas talvez não de todo necessário. O que importa mesmo é a forma como vamos encarar o que vai nos ser dito.

É neste ponto do debate que colocamos a fraternidade na equação. O nosso dever (dos maçons) é de ser fraterno apenas com os irmãos de Loja ou há um dever de fraternidade-urbanidade incutido?

Sou de opinião que o dever é amplo e irrestrito e que o debate em Loja é apenas uma exercício para um atividade que deve ser rotineira no mundo profano. Começando então pelo interior de nossas oficinas: O debate é um instituto quase perdido em nossas colunas, as instruções são repassadas sem que haja um debate filosófico ou ao menos mais aprofundado do que se diz ali. Quando temos as primeiras possibilidades de abertura dos assuntos, somos agraciados com obras de autores famosos, que engessaram a Maçonaria e seu conhecimento e que hoje são reproduzidos mecanicamente. Nada de debate. Em outra circunstância ainda com debates abertos corremos o risco de não sermos compreendidos, de sermos reprimidos e recriminados se expusermos manifestações contrárias a da opinião majoritária dos irmãos. Mais uma vez, nada de debates.

Esse cenário reproduzido nas oficinas é na realidade o cenário que temos na sociedade atual, quando o que deveria acontecer é justamente o contrário. Deveríamos ter uma conduta diversa e diferenciada no interior do templo e aos poucos torná-la pública.

Mas afinal de contas, o que é o debate? E ainda, o que é dizer "debate fraterno"?

Em Loja debater fraternamente é não expor os irmãos ao risco de reprimendas desnecessárias e deseducadas quando se expressarem, ou opinarem sobre certo assunto. Os debates devem ser livres e encorajados. Se todos os irmãos forem esposos das mesmas ideias o assunto está estagnado e não resta o que falar. Mas enquanto houver discordância, haverá evolução. A discordância não é sempre má, ela propicia ação e esta é vital, pois estagnação é a morte.

A essência do debate não está em expressar suas ideias de forma imedida, no entanto. O debate é fruto de duas exposições de ideias quando os interlocutores tem o intuito de convencimento. Se ambos, ou se aqueles que os assiste debater, não sofrem nenhuma mudança interna com o debate, este não ocorreu: os interlocutores e o público assistiram uma discussão infrutífera, morta.

Discutir não implica em inimizade, em briga, nem em nada de maléfico, se houver fraternidade. Essa fraternidade refere-se tão somente ao respeito e abertura de consciência de que por mais antigas, estudadas ou quão perfeitas possam parecer nossas opiniões (e alguns de nossos títulos de graus nos façam querer crer) estamos longe disso.

Pois bem, o título desse artigo poderia ser muito bem "Debate Respeitoso", mas quando se diz "Fraterno" se busca uma expansão do conceito de respeito. É realizar um processo mais complexo do que apenas respeitar o direito de fala do outro, é respeitar a fala em si. É aceitá-la se justa, combatê-la adequadamente se necessário mas sempre lembrando que todas as pessoas tem direito de ter um ponto de vista diverso sobre o mesmo ponto observado e lembrar que, eventualmente, algum debate não merece nem ser iniciado.

* Vª Ordem e Grande Comandante do Soberano Capítulo Renascença (Gestão 2014)

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